sexta-feira, 5 de abril de 2013

Um participante de peso

       O texto abaixo está na edição de abril do Jornal Sol da Vila. Ele foi escrito pelo Sr. Oswaldo, aquele que já comentei no primeiro post que foi o criador do nome do jornal, assim como da logomarca.
     Lembro bem do seu primeiro dia em minha atividade. Quando cheguei ele estava no pátio sentado  junto com outro senhor. Fiz, como sempre faço o convite para que participassem. Eles rejeitaram. Sr. Oswaldo disse  que já experimentara, em outro momento com outra profissional e não gostara. Falei, sem muita esperança, para que ele sentasse junto ao grupo somente para observar e que poderia se retirar na hora que desejasse. Ele concordou, o outro senhor não. Pelo menos um eu consegui levar. Não se pode ganhar todas, né? Eu não tinha ideia do tamanho do participante que conseguira agregar.
     Para minha surpresa, no meio da atividade ele me perguntou se poderia subir e pegar sua lupa, porque tem a visão bem comprometida. Pronto! Ganhei um aliado! Quando levei a proposta para criarmos o jornal, ele se entusiasmou logo. 
      Ele é uma pessoa que dá sempre um passo a frente. Foi dele o questionamento de porque não criavam textos em vez de copiar e colar. Foi dele o pontapé inicial, mas não ficou só nisso. Ele queria mais! Passou a incentivar e incentiva até hoje as outras participantes a escreverem. Digo "as participantes" porque ele é o único homem do grupo.
   Esta é uma característica que percebo sempre presente.  Poucos homens participam das atividades. É assim na Vila do Sol, era assim no grupo de convivência que coordenei no Forte do Leme.
      Os textos do Sr. oswaldo são reconhecidos pela pitada de humor que sempre acrescenta. Quando ele me falou que queria discorrer sobre a velhice fiquei curiosa em saber  como ele conseguiria dar conta de falar de uma realidade, que é a dele e do restante do grupo, sem escrever um texto pesado. Ele conseguiu! 

A velhice
     Ao atingir os 93 anos de idade, julgamos ser oportuno tecer alguns comentários sobre a vida atual, de maior interesse para aqueles que já estão se aproximando. São os que ao ultrapassarem os 65 anos atingiram a chamada 3ª idade e são classificados como idosos.
   Inicia-se então a aposentadoria com planejamento de tempo para descanso, passeios, praias, viagens mais longas, enfim, o maior aproveitamento possível do tempo que tem disponível.
     Ao chegarem aos 85 anos, a situação vai mudando aos poucos. O corpo pede mais tranquilidade. A maioria dos casais já perdeu o companheiro e é quando se inicia um período bastante diferente do anterior. O qual chamamos de 4ª idade e os participantes classificados como velhos: é a velhice que chegou.
    Nessa ocasião muitos vão morar com os filhos e outros se hospedam em casa de repouso. Inicia-se uma fase em que a liberdade de ação vai diminuindo. O controle financeiro da maioria fica por conta dos filhos que tomam as decisões. Os pais passam a se sentirem filhos dos seus filhos. Vem a preocupação  quanto as suas  possibilidades físicas e mentais. O horizonte é preocupante.
    Muitos só se movem em cadeiras de rodas, outros necessitam de andadores ou bengala e há ainda os que aguardam um braço amigo para se deslocarem.
O que mais impressiona é o Mal de Alzheimer que atinge muitos dos que estão a sua volta. Como resultado muitos precisam constantemente de um cuidador ou cuidadora porque não são mais independentes.
      Mas, apesar dos males existentes ao seu redor sempre há espaço para encontrar um caminho para passar o tempo com distrações saudáveis e certamente se sentirão tranquilos e felizes à espera do dia final.
     Sejam todos muito bem-vindos, mas não se esqueçam de que têm que respeitar a fila e que não é permitido empurrar.
      Até breve.                                               





quarta-feira, 27 de março de 2013

Estímulo e desafios


           As atividades que desenvolvo na Oficina do Saber & Memória visam além da orientação em  como exercitar a memória, estimular a criatividade que os idosos nunca tiveram oportunidade de desenvolverem ou esqueceram do que eram capazes de produzir. O estímulo e o desafio são fatores importantes para que eles continuem ativos e participantes. 
             Como sempre diz a socióloga Christine Abdalla, administradora do residencial Vila do Sol, "existe um tesouro escondido atrás de cada porta daquela casa". Precisamos abrí-las e descobrir o que cada hóspede tem a nos oferecer de bom.


Reparem que nos dois textos abaixo.  Em nenhuma palavra aparece a letra o. Eles foram elaborados na Oficina do Saber & Memória e publicados na 2ª edição do Jornal Sol da Via

             Assisti a uma “Carreata de Frutas” em uma cidade. Fiquei deslumbrada pela beleza e a ideia.
Meninas habitantes da cidade estavam vestidas a caráter e desfilavam em charretes lindamente enfeitadas. Elas dançavam na cadência de uma banda de música de crianças.
Fiquei mais admirada de ver a quantidade de habitantes que seguiam a uma rígida disciplina, mas alegres e cheias de esperança que a futura carreata traga mais fartura de frutas.
Parabéns Santa Catarina!


                                   Texto elaborado pela hóspede Elza Dantas.


     Nunca esqueci uma empregada chamada Amélia. Era alegre, prestativa e limpíssima. Tinha a mania de cantar sem parar...”Amélia que era mulher de verdade”... Sempre a mesma marchinha que me deixava irritada.
        Uma dia, fiquei sem paciência e chamei-a:
       - Amélia! Suas músicas repetitivas me irritam! Cante mais várias marchinhas.
       Para minha surpresa, ela fez que sim e saiu calada.
     Passaram-se alguns dias e eu nunca mais escutei suas cantigas. Ela trabalhava da mesma maneira, mas calada.
      Um dia a chamei e falei que cantasse suas marchinhas para trazer alegria a minha casa.
      Mais tarde, escutei suavemente suas marchinhas. Eu esperava distinguir que música era aquela.
       “Bandeira branca ... rsrsrs
                                                    

                                      Texto elaborado pela hóspede Vilma.

 

domingo, 17 de março de 2013

Estimule seus neurônios

Lembrei agora de uma historinha onde dois irmãos brincavam num lago coberto por uma camada de gelo. O maior terminou pisando numa parte mais fina do gelo e caiu nas águas geladas. Seu irmãozinho menor com muita dificldade conseguiu, apesar do corpo miúdo, resgatá-lo. Todos ficaram perplexos com a façanha. Uma velha senhora comentou: 
- Ele consegui porque não havia ninguém por perto dizendo que ele não iria conseguir e também porque acreditou que seria capaz!

Assim também devemos lidar com os idosos. Acreditando que eles vão conseguir e nunca deixá-los de lado, esquecidos. Acreditem que basta estimulá-los, desafiá-los para terem a grata surpresa de receberem de retorno coisas maravilhosas e inesperadas.

Quando trabalhei no Grupo Forte do Leme, recebi um e-mail onde tinha um texto onde inseriram o nome de vários bairros da cidade de Recife. Mostrei ao grupo e lancei o desafio de escreverem algo com os bairros da nossa cidade - Rio de Janeiro.
Trancrevo abaixo um recorte de um dos trabalhos que recebi. O texto original é longo e contém o nome de 106 bairros. Aqui encontramos somente 53 nomes. Alguns (poucos) não pertencem a capital Rio de Janeiro, mas são bem conhecidos por estarem na periferia. 

         Joãozinho BOTA FOGO em todo papel que encontra. Seu pai tem um barco que na semana passada quebrou o LEME. Ele adora frutas, mas a última tangerina que chupou estava com a CASCA DURA de tirar. Por isso ele prefere comer CAJUEle é muito esperto e detesta que tenham PIEDADE dele quando leva um tombo. Nas suas brincadeiras, fez na sua COPA, CABANA para brincar de índio porque assistiu a novela em que a índia se chamava IPANEMA. A família assiste todas as novelas com Giulia GAM, BOA atriz de televisão.
       Ele foi visitar os avós na fazenda pois eles inauguraram um ENGENHO NOVO junto das LARANJEIRAS, porque desativaram o ENGENHO DE DENTRO da garagem. Botaram o nome de ENGENHO DA RAINHA. A fazenda tem também uma OLARIA que fabrica tijolos de boa qualidade. No CENTRO da fazenda tem um CAMPO GRANDE de futebol onde Joãozinho gosta de jogar bola. No CAMPINHO menor ele brinca com seus primos pequenos. 
       Semana passada seu primo Peri foi convidá-lo para um passeio. Quando perguntou: Você já tomou banho? Joãozinho respondeu: JÁ, PERI.
          O menino é torcedor fanático do FALMENGO  e fã de Zico, mais conhecido como "Galinho de QUINTINO". É necessário ter muita PACIÊNCIA para ver o menino tentando fazer embaixadinhas, um cem número de vezes. Quando crescer, quer ser jogador profissional e jogar no MARACANÃ.
          Um dia a avó disse ao Joãozinho:
       - Vá  na garagem e pegue LA, PÁ para emprestar ao meu vizinho HONÓRIO GURGEL que é amigo de COSTA BARROS.
           O menino é religioso e usa uma medalinha de SÃO CRISTÓVÃO no pescoço e outra de SÃO CONRADO também. Ele é devoto de Nossa senhora da GLÓRIA e de Nossa senhora da PENHA. Aliás de TODOS OS SANTOS.
           Sua família gosta de fazer compras no shopping da GÁVEA e também no LEBLON. Ele dá sempre esmola para COSME, VELHO mendigo que fica perto de sua casa. Ficou triste quando descobriu que ele é ladrão e está preso em BANGU I.
             Nas férias seu pai o leva à hípica para aprender a andar a cavalo. Joãozinho fica  ENCANTADO com o andar dos cavalos: pocotó PAQUETÀ. Depois eles vão juntos andar de pedalinho na LAGOA e comprar churros com um vendedor que já é conhecido pela sua FREGUESIA.
            É um menino levado e costuma andar em cima do muro e sempre sua mãe o repreende:
       - Menino, você não pode ANDAR AÍ. Porém é estudioso e  sempre alcança BOM SUCESSO nas provas.
     Ele tem duas primas que moram em bairros diferentes. No bairro de Lucia construiram uma nova escola. No BAIRRO DE FÁTIMA colocaram asfalto novo. A mãe de Fátima se chama Inhá e faz cocadas deliciosas. Sempre que vai na casa de Fátima ele pede a INHA UMA cocada.
          D. Lucia, sua mãe, compra coisas em camelôs porque sempre PECHINCHA nos preços. Aprendeu isso com alguns amigos BANCÁRIOS.
      Joãozinho está usando aparelho nos dentes e uma vez por mês vai ao dentista Dr. Paulo, no MEIER, para ajustar o aparelho. Dr. Paulo tem uma casa de campo linda com dois PILARES na entrada da varanda.
        Ele e seu amigo Jaú, gostam muito de carnaval e sempre vão aos ensaios de três escolas de samba: LINS DE VASCONCELOS, Mangueira e Beija Flor de NILÓPOLIS. A mãe de seu amiguinho, às vezes flaGRA JAÚ, menino levado, debruçado na janela. Ela chama logo o tio BELFORD ROXO para lhe dar uma bronca.
        Quando eram menores, os dois assistiam um ambulante que tocava realejo e Joãozinho cismou que o instrumento se chamava REALENGO! Tem vezes que Joãozinho se enrola mesmo com as palavras e dia desses perguntou à mãe:
        - Quem morreu foi o Clodovil ou o CORDOVIL??? 
       Outro dia pediu para sua mãe fazer uma salada com VARGEM GRANDE e não com VARGEM PEQUENA. Na mesma hora ela o corrigiu dizendo:
       -Não é vargem, é vagem.
       Ah, esse menino é uma graça!
         Bem, para terminar tenho a dizer que essa historinha é para TI JUCA!

Texto escrito por Dulce Dreux em junho de 2009 - na época com 77 anos.

E você? Consegue fazer um texto assim também? 
Tente! Seus neurônios agradeceriam!


sexta-feira, 15 de março de 2013

Então é Natal...e o que você fez?


Trancrevo abaixo o texto de autoria de Mary  Ambrosio (91 anos) publicado no jornal Sol da Vila - edição nº 22 - Janeiro/2013

    
          

 Então é Natal...e o que você  fez?
        O ano termina e nasce outra vez...

            A letra desta música me leva a refletir. O que fiz em 2012 que me deixou tão feliz? Vou relembrar e enumerar as razões:
1ª razão - Apreciei a natureza, vi árvores, com as suas folhas de matizes e formas diversas dançarem, seguindo a melodia do vento; olhei muito para o céu e cheguei a fazer uma historinha assim: os anjinhos atormentando São Pedro para abrir a porta e deixá-los passear na terra. O santo concordou nas seguintes condições. Que lavassem o céu, deixando-o bem azul e as nuvens brancas como flocos de algodão e também jogassem um pouco de chuva na terra para melhorar a poluição do ar. Os anjinhos fizeram tudo direitinho e vieram aqui passear. Chegaram a Botafogo e viram um largo portão aberto, entraram, subiram uma rampa e chegaram à Via do Sol, no momento em que o Coral Vila do Sol se exibia, cantando “A Banda”, de Chico Buarque. Ficaram admirados ao ver tantos idosos, alguns em cadeiras de rodas, enlevados ouvindo aquela melodia tão linda com letra bem romântica.
            Depois foram conhecer a casa, entrando nos quartos daqueles que não puderam participar da festa e estavam tristes. Os anjinhos fizeram que eles ficassem alegres, dando-lhes sopros de energia, que só eles podem fazer. Aqui termina o meu devaneio...
2ª razão - Tive a felicidade de ter dois sonhos realizados: cantar num coral e fazer um curso de desenho. Sonhei ... esperei ... e recebi a graça.
3ª razão - Seguindo os ensinamentos de Jesus, procurei ajudar os que precisavam, dando-lhes atenção, consolo e solidariedade.
Eis a 4ª razão  - Ser hóspede desta casa, onde me sinto bem, tenho amigos e também, o meu piano, onde ainda toco, melodias simples que me dão felicidade e agradam as outras pessoas.
            Agradeço a Deus por ter me guiado, iluminado em 2012 e inspirado, hoje, a escrever esta mensagem para você.
            Espero que você tenha tido um Feliz Natal e tenha um Ano Novo com saúde e paz!
        
        Então é Natal...e o que você  fez?
        O ano termina e nasce outra vez...



Nota: Após ler esse texto, procure também refletir e buscar as coisas boas do ano que terminou. Coisas simples que, às vezes, você deixa passar e não valoriza.
Outra coisa!
Lembre-se que você nunca deve parar de sonhar. Sonhar é estar vivo!
A autora do texto tem mais de 90 anos e nos dá uma lição de vida, ao não deixar esta chama se apagar! Ela acreditou e realizou, não somente um, mas dois sonhos.          

Projeto jornal Sol da Vila


              Sou psicóloga e trabalhava em atendimento clínico em consultório, com base psicanalítica. Essa foi minha escolha ao concluir meu curso. No entanto, a vida nos leva por caminhos que nunca pensamos antes.
            Recebi o convite da psicóloga Luciana Genial, para dividir com ela a coordenação de um grupo de idosos. O Grupo  Forte do Leme  mantinha várias atividades físicas e um Coral. Foi lá que comecei a ministrar um horário de atividades para Memória e Raciocínio. Foi meu ponto de partida! 
          Posteriormente através de outro convite, de Christine Abdalla, socióloga,  para trabalhar com memória no Residencial Vila do Sol, administrado por ela atualmente. Lá, além de trabalhar com memória, dei forma a um antigo projeto da casa - a confecção de um jornal elaborado pelos hóspedes. 
            Há dois anos, mensalmente temos nossa reunião de pauta. No início era simplesmente um trabalho de recorte e colagem. Eles recolhiam em revistas e jornais o material que desejavam publicar. Hoje eles escrevem contos, textos de recordações de viagens, relatos de festas que aconteceram na casa e não paramos mais.
             Tudo no jornal foi criado e discutido por eles, nas reuniões de pauta. Desde a escolha do nome do jornal, o logotipo, o tema do editorial, etc. 
        Em todas as edições, publicamos uma receita que na próxima reunião de pauta, a nutricionista da casa, Gabriela Fonseca,  prepara uma degustação para o grupo. A ideia é que ao ser aprovada, a receita entre para o cardápio da casa.
              Gostaria de ressaltar a importância deste projeto para idosos que já passaram dos 80/90 anos. Eles poderiam estar isolados nesta casa, ou mesmo em casa de familiares, sem serem ouvidos, sem serem estimulados. No entanto, assim como acontece com crianças que ao serem estimuladas apresentam uma boa evolução, eles também se desenvolveram, abriram suas mentes e nos presenteiam a cada mês com textos maravilhosos. (veja o próximo post)
          Sabemos que com o passar dos anos, nosso corpo envelhece e precisamos continuar exercitando não somente ele, mas também nossa mente. Será através da nossa memória que iremos preservar nossa identidade que reune  um conjunto de características responsável por nos diferenciar de outros semelhantes.
            Infelizmente o que acontece é que em vez de cuidar  para manter a mente ativa, os idosos preferem dizer que não estão precisando. Os familiares que estão a sua volta, também não insistem ou por não acharem importante ou porque acham que não irá adiantar muito. Esse é um erro que é fatal!
             Erro que está sendo evitado na Vila do Sol, com a implantação da  atividade semanal para exercitar a memória e o raciocínio e a criação   do Jornal Sol da Vila. Não deixem de confirma o que afirmo aqui, lendo as próximas publicações deste blog.




                           Equipe inicial do jornal Sol da Vila/abril2011




                                 Criador do nome do jornal e do logotipo